Scarlett foi a capa da décima quinta edição da revista de moda As If, e foi entrevistada sobre as peculiaridades da carreira. Confira abaixo a entrevista traduzida:

Entrevistador: Primeiramente, devo dizer que foi muito divertido trabalhar nesse ensaio juntos.

Scarlett: Sim, eu me diverti bastante ao fazê-lo também!

E: Você estava bastante disposta e pegou o espírito da coisa. Até ficou pendurada de cabeça para baixo.

S: Ha, sim! Virou um dia de acrobacias. Foi um dia cheio de trabalho. Eu deveria ter recebido salário! (risos)

E: (Risos) Sim. Eu vou me certificar de dizer à equipe. Nós também estamos animados com os vestidos que fizemos inspirados no ensaio.

S: Sim, vocês devem estar!

E: Falando de vestidos, eu gostaria de te perguntar o quão importantes para você são as vestimentas para um papel.

S: As vestimentas são muito importantes para mim, e também para o público, porque dão ao ator e ao público dicas de quem o personagem é. Fornecem ao ator dicas de como um personagem se sente consigo mesmo, e como ele gostaria de ser apresentado, o que eu acho que é importante. Me ajuda como atriz porque faz parte do processo de preparação, é só mais uma camada. Eu já estou em uma mentalidade, e então visto roupas que têm significado para mim como uma atriz porque eu faço escolhas ativas na escolha das vestimentas, esteja eu escolhendo joias pessoais, um par de sapatos ou algo sentimental para o meu personagem.

E: Então, você atribui às roupas uma certa lógica do personagem, que te ajuda a entrar no papel?

S: Exatamente, também ajuda em como o personagem é, e como ele está em seu corpo. Ele está confortável com suas roupas? Ele está confortável com sua própria pele?

E: Ai, não! Mantenham ela com frio e molhada. *

S: Exatamente! Eu lembro de olhar para o Jonathan (Glazer) e fuzilá-lo com meus olhos enquanto pensava: “eu vou te matar!”. Sei como fingir que estou com frio. Eu posso fingir que não sinto meus pés ou meus dedos. No mais, já estava com frio e molhada, não precisava ser torturada.

E: Você não precisa de um método de interpretação para isso.

S: Se eu quisesse estar com frio e molhada para me sentir com frio e molhada, eu mesma faria essa escolha, sabe? Mas às vezes os diretores pensam quem podem fazer coisas assim.

E: Certo. Você é a atriz, você que cuida da parte da atuação.

S: Exatamente. Eu vou cuidar do tipo de desconforto que eu quero e preciso para a cena.

E: Atuar, em sua maior parte, é um empenho colaborativo. Você se cansa desse aspecto? Você já quis fazer todas as partes sozinha, fazer um show feminino, por exemplo?

S: Não acho isso. Eu gosto de atores, e aproveito a energia que eles me dão; e pego ideias deles também. Ainda, posso colocar toda a minha angústia, e todo o meu desejo, asco, luxúria, amor e desespero neles sem consequências; sem consequências reais. E então, no fim do dia, eu digo: “okay, vejo vocês amanhã”.

E: Eu imagino que esse seja um ótimo aspecto da profissão. Todos nós ganhamos energia e também ideias de outras pessoas: você não precisa gerar tudo.

S: Exatamente, é muito legal. Eu fiz um trabalho com Adam Driver recentemente e que vai sair no fim do ano. Nós passamos dois dias inteiros gritando um com o outro, gritando brutalmente e brigando por dois dias. Foi exaustivo, mas se eu não tivesse um ator tão forte quanto o Adam para receber tudo o que eu estava lhe dando, eu estaria perdida. Para mim, trabalhar com outros atores é uma parte realmente importante do que eu faço… é tudo.

E: Interessante.

S: Ter outra pessoa para ajudar a continuar, para ajudar a conduzir tudo…

E: Existem atores que você olha como modelos para como você considera o emprego, a profissão ou possivelmente a abordagem do seu trabalho? Algum ator com quem você tenha trabalhado, ou de outra época? Temos toda a história de performances filmadas para nós agora.

S: Havia atores na Era Dourada de Hollywood que tinham uma certa confiança, que eu acho que era devido a essa força desse novo, naturalista estilo de performance. Estou pensando em atores como James Dean, Natalie Wood e Marlon Brando. Esses atores estavam começando uma revolução em Hollywood na atuação. Eles tinham um bagunçado, imprevisível, eletrizante aspecto em suas performances e assisti-los é emocionante por isso.

E: Sim, naturalismo é a palavra que vem na cabeça. As emoções que o público estava vendo nas telas eram para parecer autênticas, que era bastante diferente do anterior, que era um estilo baseado na dicção. Antes, os atores se concentravam em poder falar muitos diálogos com um sotaque bonito, uma voz bonita e um ritmo bonito.

S: Sim, era um estilo diferente de atuação que eu acho que expressava o que estava acontecendo na época. Com atores como James Dean, Natie Wood e Marlon Brando, eles exibiam um tipo de liberação, um tipo de mostra de emoções sem arrependimento. Você vê isso até na escrita, com dramaturgos como Tenessee Williams e Arthur Miller. Eles escreviam essas cenas maravilhosamente sujas, complicadas e feias para o elenco e a plateia experienciarem. Foi uma época de grande coragem.

E: Você pensa desse modo ou aquela geração ainda é importante nos dias de hoje?

S: Você sabe, a atuação passa por tendências

E: Nós estamos vendo uma tendência na atuação hoje?

S: Hm… vivemos em um tempo muito estranho que carece de identidade de várias maneiras. Não sei se existe uma tendência na atuação mas certamente existe uma tendência no casting agora. Hoje, há muita ênfase e conversa sobre o que é atuar e quem nós queremos ver nos representando nas telas. A pergunta agora é, o que é atuar?

E: Certo. Quem fica quais papéis.

S: Você sabe, como atriz, eu devo estar autorizada a interpretar qualquer pessoa, qualquer árvore ou qualquer animal porque esse é o meu trabalho e seu requisito.

E: Sim. Você deve apenas interpretar a si mesma, seu gênero, sua etnia, ou você pode, de fato, interpretar além dessas categorias?

S: Há muitas linhas sociais sendo desenhadas agora, e muito do politicamente correto está sendo refletido na arte.

E: Isso te aborrece? Te incomoda? Te anima? Motiva você? Eu sei que é complicado, provavelmente não há uma resposta.

S: Você sabe, eu sinto como se fosse uma tendência no meu trabalho e precisa acontecer por várias razões sociais, ainda assim existem vezes que fica desconfortável quando afeta a arte porque eu acho que a arte deveria ser livre de restrições. O que você acha sobre isso, David? Você está literalmente criando arte o tempo todo.

E: Nós estamos vendo um balanço de pêndulo. O pêndulo já foi muito longe em uma direção e agora está indo na outra direção. Todos concordamos que tem que teve que ir; a questão agora é o quão longe tem que ir na outra direção e o quanto falta para atingir um ponto de equilíbrio. Eu não faço ideia. Pessoalmente, eu acho que as reações para certas coisas na arte têm beirado a histeria coletiva, e os critérios pelos quais alguns trabalhos são julgados são um tanto malucos, e ainda assim essas reações parecem estar justificadas para uma certa geração. Nas artes visuais, parece haver um grande esforço para se livrar de pessoas que estão acima de você, de fazê-las serem demitidas. Não sou um sociológo, mas acho que um aspecto do humor atual é o desejo de se livrar de pessoas que são consideradas como estando por perto por muito tempo.

S: Hmm… isso é interessante.

E: Você entende o que eu quero dizer? É parcialmente apenas biológico.

S: Acho que é verdade. É importante manter-se focado no trabalho que é significativo para você e seguir.

E: Pessoalmente, eu não acho que artistas, escritores, atores precisem ser superiores, ou mesmo, especialmente bons cidadãos, mas algumas pessoas pensam diferente sobre isso. Quero dizer, todos nós gostamos de ser boas pessoas, bons cidadãos, mas o conflito entre os dois é coisa do drama. Além disso, as morais mudam. Houve recentemente um artigo na New York Review of Books sobre o Oscar Wilde que ilustrou o seu dilema. Olhando através da lente da nossa atual moralidade, ele era um pedófilo, que era a maneira como várias pessoas de sua classe se comportavam naquele tempo. Isso não é mais aceito hoje por razões óbvias, mas isso quer dizer que devemos tirar dele o título de ótimo escritor e de ícone gay? Precisamos rejeitá-lo inteiramente? Eu não sei a resposta para isso, mas é facil para mim separar o comportamente pessoal da arte. Não é tão fácil para outros.

S: Acho que é justo. Eu entendo o como é difícil para alguns, e todos nós temos nossas próprias experiências. Eu acho que a sociedade seria mais conectada se nós permitíssemos outras pessoas a terem seus próprios sentimentos e não esperar que todos se sintam do mesmo jeito que nós.

E: Eu concordo completamente, mas o problema é que os sentimentos de algumas pessoas se manifestam por meio de censura e afetam as vidas de outras pessoas. Censura na arte significa pinturas sendo tiradas de museus, livros sendo removidos de bibliotecas, e filmes sendo banidos porque as pessoas tiveram certo sentimento sobre o que viram ou leram. Seria esse o ponto em que a esquerda se une à direita? Estamos todos à beira desse precipício, para melhor ou para pior.

Vamos mudar um pouco de assunto. Eu gostaria de perguntar se já houve alguma crítica sobre seu trabalho que você tenha achado útil, interessante, precisa ou que te revelou algo que você ainda não tinha pensado a respeito? Ou, você apenas faz seu trabalho e deixa para a pessoas assistirem e reagirem a ele de uma variedade de formas ou isso é uma conversa separada?

S: Essa é uma boa pergunta que eu também não tenho a resposta. É engraçado porque as pessoas projetam muito nas performances que elas assistem. Por exemplo, com o filme “Encontros e Desencontros”, muitas pessoas me abordaram porque elas precisavam me contar que tinham ido a Tóquio! Elas vão me dizer: “esse filme significa tudo para mim, eu vivi aquela experiência”. Entende? Eu tinha 17 quando fiz aquele filme, eu estava tendo minha própria experiência, que era bastante diferente da experiência da personagem que eu estava interpretando. A maneira como o público percebeu o que o meu personagem estava sentindo e experienciando foi, na verdade, bastante diferente do que eu, a atriz, estava sentindo e experienciando enquanto fazia o filme. Eu nunca supus que a minha experiência fosse algo com que outras pessoas pudessem se identificar porque era tão específica para mim e sobre onde eu estava na vida. Não posso começar a te contar quantas pessoas pensaram que o filme era sobre viajar e ser um estranho em um lugar estranho. Eu fico tão maravilhada quando recebo esses comentários. Para mim, Encontros e Desencontros era tão específico para uma mulher jovem que está experienciando a perda de sua inocência, e seu profundo relacionamento com um estranho fez aquela experiência ser transformadora. Para mim, o filme era muito mais sobre o relacionamento da minha personagem com o do Bill Murray do que sobre estar numa terra estrangeira. O fato de que ela estava em um lugar “alien” para ela fez ser possível a personagem ter uma perspectiva dae sua vida que ela não teria em seus arredores familiares e sendo sufocada pelas expectativas daqueles ao seu redor.

E: Filmes ainda são, em uma grande medida, um tipo de língua franca do mundo moderno. Isso soa como uma grande responsabilidade para você? Ou é divertido saber que todo mundo vai projetar algo nos personagens que você interpreta e no trabalho que você faz: corretamente ou erroneamente, relevante ou irrelevante?

S: Eu honestamente tento não pensar muito nesse aspecto. Claro que eu quero que as pessoas sintam algo e se conectem pelo que estou fazendo, e se o público não se conecta ou não entende o que fiz então eu sinto que falhei de alguma maneira. Se o meu trabalho não se traduz para o filme é decepcionante. Mas, em geral, eu suponho que o público vai chegar a sua própria conclusão de qualquer maneira.

E: Você vai para as dailies dos seus filmes?

S: Não, não sou uma pessoa de dailies.

E: Você fica surpresa com o filme depois de terminado? O filme que você pensou estar fazendo costuma tomar outra forma?

S: É geralmente diferente do que eu pensei estar fazendo. É muito raro quando é o que eu pensei estar fazendo.

E: Interessante.

S: Às vezes é devastador, e às vezes é uma surpresa agradável.

E: Para atuar é preciso ser inteligente, ou isso é um impedimento?

S: Eu acho que existem diferentes tipos de inteligência. Um deles é um requisito, mas não sei qual.

E: Um ator não tão brilhante pode interpretar alguém com uma inteligência superior com credibilidade?

S: Eu acho que é o que todos nós fazemos sem perceber. É basicamente como eu tento me virar.

E: Se o público não se importasse com atuação e assistir a performances, e se atuar lhe rendesse a mesma quantia que trabalhar em uma cafeteria, você ainda gostaria de fazer?

S: Sim, eu gostaria. Eu estou feliz sendo uma atriz para contratar. É um trabalho maravilhoso e estar satisfeita com ele coloca meu estilo de vida em segundo lugar na minha lista de prioridades. Mas, a realidade verdadeira é que atuar é muito lucrativo e na maioria das vezes eu posso ir a um restaurante sem fazer reserva. Esse é o melhor privilégio.

E: Esse é o melhor privilégio?

S: Na cidade de Nova Iorque com certeza!

E: Você tem algum truque para memorizar diálogos?

S: Eu sempre tive uma memória muito decente, não diria que é exatamente fotográfica, mas eu posso olhar uma página e decorar certas letras da página, e eu vou lembrar de letras que vêm em certas palavras e o diálogo começa a se reunir para mim. Não sei que tipo de memorização é, deve haver um nome para isso.

E: Você acha que é parcialmente devido a você ter se tornado atriz ainda muito nova? Você acha que isso treinou sua mente desse jeito?

S: Estou certa que tem muito a ver. É parte do meu conjunto de habilidades. Não tenho muitas mas aí está! (risos)

E: Eu sempre fui fascinado por pessoas que conseguem memorizar páginas de diálogos, grandes discursos, principalmente para o palco, onde o ator não tem a opção de fazer outra tomada.

S: Quando eu estava performando Gata em Teto de Zinco Quente, eu interpretava a Maggie, que é um papel dos sonhos, mas essa personagem não cala a boca! Ela é um terror! Eu acho que no palco as palavras vão com o movimento e vice-versa. Palavras me ajudam a saber aonde estou indo, o que acaba me ajudando a lembrar o que vou falar. É por isso que uma boa encenação é tão importante, com uma boa encenação as palavras vêm até você. Com uma má encenação você pode se encontrar sentado em algum lugar do palco pensando: “que p*rra eu estou fazendo aqui e o que era que eu estava falando?”.

E: Christopher Walken uma vez me disse que ele colocava seu script embaixo de seu travesseiro à noite e pela manhã estava tudo em sua cabeça.

S: Eu já fiz isso… e já orei

E: Orar ajuda.

* Referência às filmagens de Under The Skin.