A Elle divulgou na quarta-feira, 09, as capas da nova edição de novembro, Women In Hollywood, numa das quais Scarlett estrela e também uma entrevista que a atriz deu à revista. Confira abaixo a sua tradução:

Scarlett Johansson é uma mulher feliz que não consegue parar de interpretar mulheres tristes.

No início de Marriage Story de Noah Baumbach, vemos a Nichole, personagem de Scarlett Johansson, uma mulher em seus trinta e poucos anos que é apaixonada por cardigãs com cor de aveia e cuja bio do Instagram poderia ser lida como “mãe, esposa, atriz, nesta ordem” sentada em um sofá dentro do escritório da sua advogada de divórcio. Logo, ela mergulhará em sua história, um monólogo de seis minutos de duração, que é igualmente cru e preciso: a história de alguém que não é verdadeiramente ouvida há meses, talvez anos (e uma cena que provavelmente irá ressurgir durante transmissões de premiações). Mas primeiramente, Nicole é apenas uma mulher num sofá — parecendo muito cansada em uma camisa enrugada e com um corte de cabelo Faça-Você-Mesma — esperando. Quando a sua advogada (Laura Dern) finalmente entra, impecavelmente penteada mas pedindo desculpas por estar parecendo “desgastada”, Nicole olha para a sua própria camisa e suspira. É um pequeno momento, mas um que fez essa exausta mãe, esposa e jornalista se sentir vista.

Johansson também sentiu um quase que estranho senso de conexão quando Baumbach lhe deu o monólogo durante o almoço no outono de 2017. “Foi a primeira parte que o Noah me deu, e de alguma maneira pareceu familiar, mas não pelo que eu estava experienciando na época,” diz a atriz, 34, que no momento estava enrolada em sua própria separação, do curador francês Romain Dauriac. “Mas talvez por conta de como eu cresci, e a dinâmica entre meus pais — ou talvez porque conheço mulheres que se dedicavam à visão de seus parceiros e então saíram desse relacionamento que durou uma década se sentindo quase como uns fantasmas.” Ela complementa, também, que já esteve nesse lugar, e que a verdade na história da Nichole foi o que a animou. “Eu não hesitei mesmo, porque eu sabia que teria a oportunidade de dizer aquelas palavras,” ela diz. “Noah me deu aquele monólogo, e eu fiquei tipo, ‘Bem, droga, vamos lá.’ Eu vou ficar, ‘Nah, eu estou bem — deixe alguma outra atriz ficar com isso’? De jeito nenhum.”

Johansson está retransmitindo de Londres essa história, onde ela está na reta final de filmagens de Black Widow, que estreia próximo maio, o qual ela estrela e produziu. Pouco mais de uma semana antes, a Forbes a nomeou como a atriz mais bem paga pelo segundo ano consecutivo, com seus faturamentos de 2019 atingindo a marca dos $56 milhões. Ela acabou de retornar de Veneza, onde Marriage Story estreou com reviews brilhantes. Quando essa história chegar nas bancas, plateias já a terão visto em Jojo Rabbit, sátira comovente sobre o Holocausto de Taika Waititi que entrega o peso emocional de Life Is Beautiful com uma colherada da extravagância de Moonrise Kingdom. Quando você analisa tudo isso, fica claro que Johansson está no auge de sua carreira.

“Eu estou em um bom período criativo,” ela admite, enquanto também reconhece que “tudo vai e vem, e às vezes você está nadando em uma onda, e então a onda abaixa, e aí você está esperando por outra onda”. Considerando a trajetória da sua carreira até aqui — com papéis memoráveis em filmes como Lost in Translation e Match Point (pelo qual ela ganhou indicações ao Golden Globe), e também uma performance ganhadora do Tony Awards em A View From The Bridge da Broadway — pode ser difícil apontar os vais, apesar de já ter havido alguns.

Depois de ser repreendida por possíveis papéis inapropriados em Ghost in the Shell e Rub & Tug (ela abandonou o papel em meio à controvérsia; o projeto está agora no limbo), Johansson disse a um repórter que “como uma atriz,” ela deveria estar autorizada intepretar “qualquer pessoa, qualquer árvore, ou qualquer animal.” (Ela depois esclareceu a declaração, dizendo que em um mundo ideal a arte deveria ser imune ao politicamente correto). Dois dias depois de nos falarmos, ela está nos noticiários mais uma vez por defender o diretor de Match Point, Woody Allen, que foi acusado de molestar sua filha adotiva (uma acusação a qual ele nega repetitivamente). Para seu crédito, os críticos de Johansson não encontrarão nada para discordar em seus filmes atuais, ambos parecem extraídos das fontes mais autênticas de história pessoal.

Em 2017, durante um episódio de Finding Your Roots, Johansson descobriu que o tio de sua mãe e dois primos morreram no Gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial. Waititi de Jojo Rabbit baseou o papel de Johansson em sua própria mãe judia, assim como em “todas as melhores mães solteiras que eu já conheci,” ele diz. No filme, a personagem dela serve como um raio de bondade e esperança em um mundo que está desmoronando. “Eu quis mostrar uma mulher que, apesar de toda a insanidade que estava acontecendo, foi capaz de se concentrar em dar ao seu filho a chance de ser uma criança,” Waititi diz. Johansson, que compartilha da sua filha de cinco anos de idade com o seu ex-marido Dauriac, é na verdade “uma pateta muito divertida” ele acrescenta.

“É engraçado, porque eu nunca tinha interpretado uma mãe antes,” Johansson diz, “e agora, de repente, eu tenho dois filmes seguidos que eu tenho filhos que têm, tipo, oito ou nove anos. Atores vão até onde precisam ir, tendo eles vivido isso ou não, mas [esses papéis] tiveram uma ressonância mais profunda comigo por causa da minha própria experiência pessoal”.

Quatro anos antes de Scarlett Johansson nascer em New York City para o arquiteto dinamarquês Karsten Olaf Johansson e a produtoraa Melanie Sloan, o filme Kramer vs. Kramer, estrelando Meryl Streep e Dustin Hoffman como um casal afastado em uma amarga disputa de custódia, ganhou Melhor Filme no Academy Awards. Muitos anos antes disso, a minissérie de Ingmar Bergman que virou filme, Scenes From a Marriage, foi culpada por um aumento histórico de divórcios na Europa. Na mesma época que ela era uma adolescente, os próprios pais de Johansson se separaram. O que Marriage Story,  uma tacada contemporânea na instituição, deixa claro é que o sentimento confinado que Streep retratou em Kramer ainda existe, em um relacionamento supostamente progressista.

“[A personagem da] Laura dá um incrível discurso sobre essa fachada de igualdade,” Johansson diz, “onde a mãe é a Virgem Maria, e Deus está lá em cima e nem mesmo houve uma foda. Te faz pensar duas vezes sobre com o quê a verdadeira igualdade de gênero se parece, e se é possível.”

Baumbach não sabia que Johansson estava enfrentando um divórcio quando ele a convidou para um almoço naquele fatídico dia, mas escrever a personagem com ela em mente lhe deu a confiança de tentar coisas que ele poderia não ter tentado caso contrário. “No papel, um monólogo de sete páginas em um script pode parecer assustador,” ele diz. “Mas eu fiquei animado com isso, pensar que era ela.” Promover um filme sobre divórcio enquanto celebra um novo amor também parecem um pouco assustador, mas Johansson, cujo casamento com Colin Jost do Saturday Night Live foi anunciado lá em maio, está à altura da tarefa.

“Minha habilidade de compartimentalizar se faz útil quando é hora de coisas assim,” ela diz com uma risada. “Eu estou certamente, obviamente, bastante feliz e realizada na minha vida pessoal, mas eu também sou uma soma de muitas peças, e capaz de acessar diferentes partes da minha história e de como eu cheguei até aqui. É tudo valioso.”

O texto original pode ser lido aqui.