Watch This oferece recomendações de filmes inspirados por novos lançamentos, estreias, eventos, ou ocasionalmente apenas o que vier na telha. Essa semana: Com Viúva Negra adiado, nós olharemos de volta para as melhores performances de Scarlett Johansson.

Ela (2013)

Muitos atores, desde Elizabeth Taylor até Charlize Theron ganharam reconhecimento por tirar o apelo superficial de seus glamoures hollywoodianos. É o outro lado da obsessão nojenta e infinita pela beleza feminina: Seguindo o clichê, se você quer ganhar prêmios de Melhor Atriz, se torne feia. Mas como dizer que você entregou um bom desempenho sem um corpo para ser exposto nas telas? Negada de sequer mesmo um avatar, Scarlett Johansson faz exatamente isso em Ela, uma meditação melancólica da solidão, amor e tecnologia, criada por Spike Jonze. Como Samantha, uma I.A., assistente de um sistema operacional de computadores, Johansson passa o filme inteiro como uma voz sem corpo, sua personagem é transmitida por completo por meio da sua alta voz rouca. É uma das performances mais completas e comoventes de toda sua filmografia; longe de alguns papeis, este ilumina seu talento, demonstrando como ela brilha mesmo em um dos papeis mais limitantes possíveis.

É claro que o filme ser um dos melhores do século XXI ajuda. O que soou um tanto bobo na teoria se tornou devastador na pratica, o que é meio que a especialidade de Jonze. Joaquin Phoenix é Theodore Twombly, um futuro divorciado, escritor de cartas em um cubículo de uma futura Los Angeles, que desenvolve um forte laço com a assistente tipo Alexa ou Siri, de seu novo sistema operacional. Samantha, como ele a chama, o ajuda a reganhar confiança e um desempenho mais positivo, enquanto ele a ajuda a descobrir as emoções (suas próprias inclusas) e um conhecimento mais firme sobre a humanidade e sua cultura. Eventualmente, o relacionamento dos dois se transforma em um romance, começando com um encontro tarde da noite que seria como uma variação digital de sexo por telefone.

Perto de fazer uma década, Ela ainda se mostra um passo a frente do nosso mundo, mesmo com os avanços tecnológicos continuando a acelerar. Quase todos os aspectos do filme são superlativos, desde o design de produção muito criativo e sutil (imaginando um futuro próximo muito plausível) até um elenco de apoio magnifico. (Para nomear um dos floreios idiossincráticos, mas poderosamente inovadores, que ajudam Ela a se destacar, o diretor de fotografia, Hoyte van Hoytema, eliminou quase por completo a cor azul da paleta de cores do filme, alegando que ela já foi muito utilizada na ficção cientifica e pareceria muito legal para este material.) Mas mesmo assim, nenhuma dessas manobras artísticas importaria se o relacionamento principal não funcionasse. O par romântico é um sucesso, pois ambos os atores se submeteram por completo na ideia de um amor não orgânico, e trouxeram Theodore e Samantha a vida com uma real profundidade.

Isso é uma vitória especialmente impressionante para Johansson. Com nada além de suas cordas vocais, ela criou uma personagem completa e tridimensional, dando uma forma muito humana para sua origem literalmente inumana. Quando Samantha está aprendendo sobre comportamentos básicos e graças sociais, seus difíceis momentos de descobertas são ressaltados pelo riso gostoso e autoconsciente de Johansson. Quando a I.A. está apontando os jeitos óbvios que suas habilidades vão muito além do que o próprio Theodore consegue entender, sua amorosa paciência e até mesmo humildade a tornam muito relacionável, ao ponto que o público pode adotar tanto o ponto de vista de Samantha como o de Theodore. Mesmo o fim – no qual Samantha se atualiza para um ponto além da compatibilidade humana e realiza uma decisão muito complicada – é carregadíssimo de emoção, enquanto um ser além da nossa compreensão consegue compreender o peso e a dor causada por sua decisão.

É claro que Johansson traz algo para o papel que muitos, talvez a maioria, dos atores não traria, ou simplesmente não conseguiriam. (A história da longa produção confirma essa suspeita: o filme inteiro foi gravado a principio com Samantha Morton no papel, apenas para Jonze escalar Johansson durante o processo de edição, os dois trabalharam juntos por quatro meses em cenas novas e retrabalhadas com Phoenix.) Como Samantha, Johansson literalmente cria algo do nada, invocando uma personalidade de um conjunto de uns e zeros, e no processo, dá vida a uma história de amor dentro das circunstancias mais improváveis. Raramente um ator fez isso, ainda mais com tão pouco.

Disponibilidade: Ela está disponível para streaming na Globo Play e para aluguel no NOW.

Tradução e adaptação: Equipe Scarlett Johansson Brasil.

Fonte: Watch This.