Scarlett Johansson mostra os seus superpoderes

De volta no uniforme de couro pela oitava vez em Maio*, a Viúva Negra, a personagem atrevida da Scarlett Johansson finalmente consegue seu próprio filme. Com uns 30 anos na indústria do show business, a atriz de 36 anos foi rapidamente de queridinha do indie para um sucesso de bilheteria e ela agora tem o poder de escalar uma mulher na cadeira de diretor. É o compromisso fanático da Scarlett para com papéis estranhos que faz os fãs estarem com ela. E com a sua própria companhia de produção, ela está livre para fazer com que seu trabalho seja tão rico e tão desafiador quanto ela mesma é.

Pendurada atrás de Scarlett Johansson, que está em casa em Nova Iorque, está uma pintura do artista Lois Dodd, uma vez já descrito como o pintor de janelas mais fomoso dos Estados Unidos. É uma pintura enorme,— dominada por um crepúsculo roxo profundo e uma grande casa de tábuas de madeira, uma janela decorada iluminada de amarelo — pairando sobre a cabeça da Scarlett como uma ideia. “Eu estava pensando que talvez eu pudesse enquadrar como se parecesse que eu estou na pintura,” ela diz. É um desses pensamentos que você tem no meio de uma chamada do Zoom quando se vê, mais uma vez, fixado no canto de uma tela.

Durante o ano passado e seus muitos Zooms, com a excedência de eventos de um lado e a ausência deles estarem acontecendo do outro, Scarlett aprendeu algumas coisas sobre si mesma “Bem, eu nunca passei esse tempo todo sem trabalhar. Nunca. Na minha vida toda.” Ela arregala seus olhos por trás dos grandes óculos pretos “Eu trabalho há 30 anos!”

Ela tem 36.
“É loucura,” ela diz. “É insano. Eu estava com uma barba branca grande que eu acabei de tirar antes disso aqui.”
Você poderia se aposentar, eu sugiro.
“Não é nem aposentadoria antecipada” ela diz, com um pouco de pesar.

A partir de atuação na infância – no off-Broadway interpretando uma criança em Manny & Lo aos 12 anos e em O Encantador de Cavalos aos 14 – sua carreira cresceu exponencialmente e irreprimivelmente, do indie à Marvel. Ela não é o tipo de atriz que, ao conseguir o papel de superheroina, fica na mesmice, fazendo um filme por ano interpretando uma aproximação de si própria. Ao invés disso, ela, de algum jeito, manteve o status de atriz coadjuvante com efeito de blockbuster. Ou, como Soffia Coppola, que dirigiu Lost in Translation, o filme que alavancou a carreira dela para grandes ligas lá em 2003, fala por e-mail, “Ela provou que ela consegue ser um mulherão e também uma atriz respeitada com profundidade e força.”

Ao longo dos seus anos envolvida no universo Marvel, Scarlett revelou maestria no combate corpo a corpo, mas ela também deu à sua personagem, Natasha Romanoff, a Viúva Negra, mistério e humor. “O que é realmente incrível sobre ela como uma atriz é que ela não consegue fingir,” diz Cate Shortland, a diretora de Viúva Negra, o primeiro filme solo da Scarlett da Marvel, previsto para ser lançado em Maio*. “Não tem conversa fiada, ela tem que acreditar naquilo.” Rachel Weisz, sua co-estrela, concorda. “Ela é extremamente talentosa e trabalha duro e é apaixonada pelo seu papel. Ela é decidida, muito focada e clara sobre a história que está contando”

Em retorno, a Marvel deu à Scarlett uma riqueza incompreensível e um poder genuíno. Ela foi a atriz mais rentável de Hollywood em 2018 e 2019 e agora ela carrega o fardo de ser importante: ela consegue fazer com que filmes sejam feitos e pode escolher a dedo seus diretores. (Das 49 diretoras mulheres consideradas para Viúva Negra, a despercebida Cate Shortland ficou entre as três últimas e foi escolhida após conversas com os produtores da Marvel e com a Scarlett, que gostou do seu filme anterior, Lore. “Foi uma conexão,” Shortland diz agora.)

Apesar da Marvel tender a dominar a paisagem, são os outros papéis da Scarlett que revelam sua elasticidade própria como atriz. Ela consegue ir de uma estranhamente amável voz sem corpo (Ela) até uma perturbadora alien assassina (Under The Skin), de uma estrela de filme dos anos 50 de nado sincronizado (Hail, Caesar!), até uma atriz devastada que está se divorciando. Ela busca personagens que contrariem preconcepções – especialmente aqueles relacionados a sua beleza, o tipo que enganou jornalistas homens por décadas – e traz a eles uma química de comprometimento fanático, uma perspicácia não-convencional e uma inteligência sarcástica que de vez em quando se revela em uma perfeita oposição à expressão de olhos arregalados e crédula no rosto dela. Por e-mail , o diretor Noah Baumbach, que escreveu o papel de Nicole em História de Um Casamento especificamente para Scarlett, lembra de momentos no filme “onde nada é falado e o rosto dela diz tudo. É aquela coisa que acontece quando o interno se torna externo. E um close-up pode ser a melhor tomada imaginável.”

Não que tenha havido muita atuação ultimamente. Quando o mundo parou, Scarlett se encontrou “meio confusa,” ela diz. “Eu não sei, eu estava tendo uma experiência extra-corpórea.” Sem um filme para atuar, ela se encontra à deriva, flertando com uma pequena crise existencial. “No começo, eu estava fazendo aquelas besteiras que todo mundo estava fazendo – tipo, eu vou começar a aprender a tocar violão,” ela diz, em um de um número de solilóquios durante a nossa conversa que perpassam uma auto-interrogação sincera e um stand-up. “Enfim. Entre o pânico. E aquele tipo de coisa meio que desapareceu, e eu percebi, na verdade, que eu existo muito bem neste espaço. Percebo que eu não preciso estar em movimento constantemente para sobreviver, acho eu.” Ela pausa. “Eu sempre tive esse medo de que se tudo vai embora, o que vai acontecer comigo? É esse grande medo do desconhecido, e agora eu tenho estado desse jeito por algum tempo, eu percebo, Oh, na verdade, você ainda está viva.” Ela sorri e acrescenta alegremente, “Isso provavelmente vem de um pouco do medo da morte, de qualquer maneira.”

Scarlett cresceu em Nova Iorque, Nova Iorque está na essência dela. Ela agora divide seu tempo entre a cidade e uma casa em Long Island com seu terceiro marido, Colin Jost, o co-escritor principal no Satuday Night Live, e sua filha, Rose, que tem sete anos. Scarlett tem o nome da Rose em um colar de prata que está no seu pescoço e que ela fica mexendo enquanto fala. (O pai da Rose é o jornalista francês Romain Dauriac, segundo marido da Scarlett, do qual ela se divorciou em 2017. Seu primeiro marido foi o ator Ryan Reynolds.) Rose a ajudou a conter a crise induzida pela pandemia. “Eventualmente você tem que aceitar que isso vai levar o tempo que tiver que levar,” Scarlett diz, “e eu tinha que estar lá pela minha filha, obviamente, imediatamente, como todos os pais. Isso te dá uma base.”

Scarlett cresceu sendo a junção mais nova de quatro filhos. Seus pais, Karsten Johansson e Melanie Sloan, tiveram Adrian, Vanessa e então os gêmeos Scarlett e Hunter. Ela é três minutos mais velha que Hunter. “São três minutos muito importantes,” ela diz. “Provavelmente os mais importantes, na verdade.” Scarlett consegue transformar conversas em comédia: piadinhas curtas fluem. (“Ela é muito engraçada,” Weisz diz, “obscena até. Despretensiosa. Sempre fazendo piadas no set.”) Em certo ponto, quando eu uso a expressão “pissed off” e me desculpo pela britaniedade daquilo, ela dá um olhar feroz para a câmera e faz uma oitava com sua voz: “Eu estou familiarizada com o seu tipo.”

Ela dá os créditos da sua perspicácia para o seu pai dinarmaquês, cujo humor também deu origem à vibe da família: irmãos constantemente se provocando, ela e o seu irmão mais velho incitando todo mundo a fazer besteiras. “E claro,” ela diz, “Eu era muito chamativa. Eu organizava competições familiares e shows e festas e restaurantes falsos. Eu amava fazer todo mundo participar daquilo. Eu arengava o Hunter a começar um restaurante, fazer um menu, cobrar as pessoas para pegar coisas da cozinha. Fazer uma competição de ciência. Todo mundo na família tinha que criar um projeto de ciência. E eu acho que isso era antes do Google, então as pessoas realmente tinham que se virar.”

Ela não os deixava descansar: ela queria reações e explosões, casacos brancos, fogos de artifício. Se a Scarlett vai fazer alguma coisa, ela vai fazer. Você pode ver isso no trabalho dela, na maneira que ela interpreta uma cena, como um momento de passagem na montagem de abertura de História de Um Casamento na qual Nicole está jogando Monopoly com o seu marido, Charlie (interpretado pelo Adam Driver), e o filho deles. Em uma tomada que dura alguns segundos, Scarlett parece tão aérea no jogo que você imagina que eles estava jogando de verdade, durante dias. O filme mostra a Scarlett no seu melhor, sua performance indo de miséria abjeta enquanto o seu divórcio se desdobra até um número de música e dança. Mesmo agora, ela diz, ela se encontra mandando mensagens para Baumbach com ideias sobre como eles poderiam ter feito uma cena diferentemente. Ela é uma autodeclarada “atriz bagunçada”, sempre querendo interpretar um momento de cem maneiras diferentes, errando, melhorando. E ela acha isso difícil de parar. “Eu fico pensando sobre coisas que eu deveria ter tentado,” ela diz. “Eu fico tendo ideias para um filme que eu fiz há muito tempo”

Profissionalmente, Scarlett encontrou seu par em Baumbach. Quando eles se encontraram pela primeira vez para discutir o papel de Nicole, ela estava vivendo seu segundo divórcio, e você consegue ver a crueza na performance dela, as bordas denteadas do luto, ternura e fúria entrelaçadas. “Nós compartilhamos muitas histórias sobre nossos relacionamentos passados, e um pouco do que ela disse está no filme” Baumbach me contou. “Ela sempre estava muito aberta. Outra pessoa talvez tivesse fugido dessa história pela mesma razão que ela a abraçou. Eu tenho uma dívida com ela por isso.”

Perto do começo do filme, Scarlett tem um longo monólogo no qual a personagem faz um resumo do seu casamento para a sua advogada (interpretada pela Laura Dern, que ganhou um Oscar pela sua performance). Durante o curso da cena de uma tomada só e que dura cinco minutos, ela guina de memórias felizes para uma frustação enfurecedora, sua vida inteira sendo jogada fora. Baumbach descreveu como ele fez uma observação para a Scarlett entre as tomadas “e ela escutava de uma maneira na qual ela não revela nada. Na câmera o rosto dela é tão expressivo mas na vida real ela consegue ser bem intimidadora, porque você não consegue lê-la. Conforme fui a conhecendo melhor, eu agora vejo isso como concentração e sentimento profundos. Ela está tentando por dentro. E então ela vai voltar para um cena de uma maneira que me lembra um atleta voltando para um jogo. Ela começa do início, de novo encontrando a emoção verdadeira que a cena precisava, e então executa exatamente, precisamente aquilo que a gente havia discutido.”

“O Noah pode ficar discutindo as coisas para sempre” Scarlett lembra. “Pra sempre. Ele pode passar horas só explicando uma cena, e isso se torna parte da nossa vida. Ele ama fragmentar todas aquelas coisas. Eu sinto falta disso, sinto falta dessa parte do meu trabalho. A parte da resolução de problemas, descobrir o porquê daquela coisa não estar funcionando. – essas são as coisas divertidas.” Mas até mesmo ela tem limites. Um dia no set, Baumbach disse que ele não gostava da interrupção do horário de almoço. Ele queria continuar, continuar trabalho. “Eu fiquei tipo, ‘Cara, todo mundo precisa de almoço, tá? Eu quero almoço. Eu gosto de almoço.’”

Scarlett fala sobre seus diretores constantemente, como co-criadores que desenvolvem personagens com ela. Ela fala sobre como Taika Waititi, o diretor de Jojo Rabbit, é “outra espécie de ser humano”, capaz de inventar um diálogo na hora. E como Joss Whedon, o diretor do primeiro filme dos Vingadores em 2012, teve um “amor infeccioso” pela Viúva Negra. Scarlett talvez nunca tivesse sido a Viúva Negra de forma alguma; Emily Blunt foi originalmente escalada para o papel mas desistiu, estava comprometida com outro filme. Depois de Homem de Ferro 2 de 2010, a primeira aparição da Viúva Negra, Whedon a colocou em Os Vingadoresa. Scarlett estava profundamente cética. “Só o pensamento de todos nós juntos em nossos uniformes de super-heróis fazia parecer que ia ser um desastre,” ela diz. “Não um desastre, mas, tipo, O que é isso? O que é isso?”

Agora que o Universo Marvel é um gigante cultural, uma franquia que não apenas tem dominado o cinema por anos mas também se tornou sua própria força comercial (Vingadores: Ultimato de 2019 arrecadou $2.8 bilhões em bilheterias, mais que qualquer outro filme já arrecadou), é difícil imaginar tanta incerteza. Scarlett sentiu que eles estavam entrando em algo grande antes mesmo dos cinemas lotarem. Em Os Vingadores, tem uma cena onde os heróis formam um círculo – Hulk, Homem de Ferro, Gavião Arqueiro, Viúva Negra, Capitão América, Thor – e a câmera gira ao redor deles enquanto Nova Iorque queima. “Eu lembro de fazer aquela tomada 360, e a gente estava sobre os destroços do Grand Central ou sei lá, desse ataque alienígena, e todos nós estávamos pronto, tipo: Aqui vamos nós, é isto,” Scarlett fala, quase animada, como se estivesse de volta no seu uniforme de couro, preparada. “E então eles nos mostraram o playback, e eu acho que esse foi o momento que todos nós, finalmente, depois de seis meses de gravações, ficamos, ‘Oh, isso vai dar certo. Eu acho que isso vai dar certo.’”

Sete filmes e quase uma década depois, Viúva Negra finalmente tem o seu próprio filme. Fazer o filme foi exaustivo, com quatro meses de múltiplas localidades e um calendário rígido “Foi como estar no exército,” Cate Shortland diz. No final, Scarlett e sua co-estrela Florence Pugh estavam ambas filmando enquanto doentes com pneumonia. Mas no set Scarlett estava sempre flutuante – e irreverente. “Ela é completamente despretensiosa,” Shortland diz, “e isso faz ser muito divertido estar por perto dela. Ela fica fazendo piadas com o best boy ou o runner; não tem hierarquia. Ela gosta de pessoas, e gosta de fazer as pessoas se sentirem queridas.”

A versão final do filme, a diretora e a atriz desejam, trará uma nova profundidade ao universo da Marvel. “Ela realmente conseguiu fazer algo que não fosse inconsistente ou superficial,” Shortland diz. “Ela quis fazer algo que significasse muito para os jovens e para as mulheres. E ela sabia que era possivelmente o seu último filme como Viúva Negra – ela não queria sair da Marvel fazendo um filme ‘contente’.” Depois de todos esses anos, elas duas sentiram que Viúva Negra merecia um retrato mais minucioso. “Ela sempre fez parte de alguma coisa maior que ela mesma, e agora tudo isso se foi,” Scarlett fala. Foi estressante ter que conduzir sua própria parte da franquia? “Sim, foi uma grande exposição,” ela fala. “Mas já era hora, sabe?”

A Marvel impulsionou as suas estrelas para um tipo novo de camada da atmosfera. Você ganha isso tudo de dinheiro por um filme – Scarlett ganhou $56 milhões em 2019 – e isso acaba fazendo sentido. A não ser que você esteja no programa de TV de comédia americano Saturday Night Live, onde isso vira alvo de piadas. Ela já foi anfitriã do SNL raras seis vezes – apenas outras 11 pessoas, incluindo Tom Hanks, Tina Fey e Alec Baldwin já fizeram isso mais de cinco vezes. Colin Jost dá crédito do sucesso da Scarlett no programa ao seu background no teatro. “Além de ser uma ótima atriz, Scarlett tem uma leveza na performance dela que realmente ajuda quando se está fazendo um show de variedades e você tem que constantemente trocar de personagens,” ele me fala por e-mail. “Ela é engraçada, e isso acaba fazendo uma grande diferença.”

Ser a anfitriã dá a ela o famoso monólogo da abertura e a chance de ficar sendo uma pateta em esquetes vestida como um alien ou uma aeromoça, ou até mesmo a Viúva Negra, e abraçar o Jost pelos gritinhos da plateia. “A sexta vez é ainda mais animadora que a quinta, porque você não está mais preocupada. Se for ruim, o que eles vão fazer, demitir meu noivo?” ela ironiza no seu monólogo de abertura do programa em dezembro de 2019. “Ai não!” ela disse, ao som de risadas alegres. “O que a gente vai fazer sem o salário dele?”

Parece um alívio, a comédia – uma maneira de tirar um pouco da reverência da celebridade dela e de fazer piada com o aumento inexplicável dos ganhos dela. Riqueza confere poder, e poder é estranho quando se é um ator. É difícil saber o que ele significa, ou o que você pode fazer com ele sem parecer dolorosamente cheio de si. Scarlett usou o seu nitidamente – dando um discurso na Women’s March em Washington em 2017, por exemplo. A política está no seu sangue: sua avó Dorothy Sloan costumava levá-la para reuniões de política quando ela era uma criança. Seu irmão gêmeo, Hunter, é um ativista há anos, e Scarlett já várias vezes se juntou a ele para fazer campanhas de escala nacional e local. Em um discurso em um evento durante a campanha de Scott Stringer para se tornar o controlador de Nova Iorque em 2011, ela revelou um conhecimento de assuntos técnicos, mas vitais – moradia, fraturamento hidráulico – que parecia um pouco diferente. “Ela defende aquilo que ela acredita,” Sofia Coppola diz, “e faz isso na sua própria maneira individual. Ela nunca é Maria-vai-com-as-outras.”

Mas a Scarlett já ficou no centro de tempestades provocadas por alguns de seus posicionamentos descompromissados. “É,” ela fala secamente sobre a sua aparente atração para controvérsia, “Eu fiz uma carreira disso.” Primeiro, foi a adaptação do mangá Ghost in the Shell, pela qual ela foi acusada de whitewashing: aceitar um papel que deveria ser de uma atriz asiática. Então veio a decisão dela de interpretar um personagem transgênero no filme Rub and Tug, o que ela inicialmente defendeu. “Diga [à mídia] que eles podem se dirigir aos representantes do Jeffrey Tambor, Jared Leto e Felicity Huffman para comentários” fez seu statement inicial, se referindo a outros atores que intepretaram papeis de pessoas trans. (Isso foi seguido por uma desaprovação pública, e um pouco depois ela largou o papel e logo após lançando um statement na revista Out: “Eu aprendi bastante da comunidade desde que dei meu primeiro posicionamento sobre minha escalação e percebi que foi insensível.”) Ela também já provocou críticas intensas ao professar uma lealdade contínua ao Woody Allen, que foi acusado por sua filha adotiva Dylan Farrow de abuso sexual.

Olhando para trás, o impacto das várias confusões, ela aparenta estar um pouco cansada, mas ela claramente se colocou em processo de auto interrogação. De um lado, ela diz, “Eu vou ter opiniões sobre as coisas, porque é essa quem eu sou.” Mas igualmente, ela sabe que algumas vezes ela pisa na bola. “Quero dizer, todo mundo tem dificuldade em admitir quando está errado sobre as coisas, e tudo isso vir a público, pode ser vergonhoso. Ter a experiência de, uau, eu estava realmente errada ali, ou eu não estava entendendo a coisa em sua totalidade, ou eu fui imprudente.” Ela suspira, encolhe os ombros. “Também sou uma pessoa.”

Uma coisa que ela está tentando aprender é quando falar as coisas e quando não – “perceber quando não é a sua vez de falar,” como ela coloca. “Eu posso ser reativa. Eu posso ser impaciente. Isso não mistura bem com autoconsciência.” Mas ela também bate na ideia de que ela tem que ter uma responsabilidade política ou social particular como uma atriz, que seu status automaticamente requer que ela dê um exemplo perfeito.

“Eu não acho que atores têm obrigações de ter um papel público na sociedade,” ela diz, mergulhando em outro solilóquio. “Algumas pessoas querem que sim, mas a ideia de que você é obrigado porque você está no olho do público é injusta. Você não escolheu ser um político, você é um ator. Seu trabalho é refletir a nossa experiência para nós mesmos; seu trabalho é ser um espelho para a audiência, ser capaz de ter uma experiência empática através da arte. É isso que o seu trabalho é. Quaisquer que sejam as minhas visões políticas, todas essas coisas, eu me sinto mais bem-sucedida quando as pessoas podem se sentar em um cinema ou em casa e entrarem em uma história ou uma performance e ver pedaços delas mesmas, ou conseguem se conectar consigo mesmas através da experiência de assistir a uma performance ou história ou interação entre atores ou o que quer que seja. E elas são afetadas por aquilo e pensam naquilo, e elas sentem algo. Sabe? Elas tem uma reação emocional com aquilo – boa, ruim, desconfortável, validante, tanto faz. É esse o meu trabalho. As outras coisas não são o meu trabalho.”

Scarlett patrulha seus limites cuidadosamente, e uma maneira pela qual ela põe um limite na sua persona pública é tendo zero presença em redes sociais. Ela continua duvidosa sobre as possibilidades de vida digital. “Eu já estou ansiosa, eu já tenho uma tonelada de culpa com meus amigos, eu não consigo manter contato com as pessoas! Como eu posso ficar mais conectada?” Ela já viu amigos desaparecerem nos buracos das redes sociais, ficarem obcecados em como as pessoas respondem a eles, em transe pela imagem refletida de si mesmos que eles recebem pelos seus seguidores, boa ou ruim. “Elas criam um tipo de senso de ego meio irrealista,” ela diz.

“É claro, qualquer coisa que você diga, seja policamente correta ou não, qualquer discurso que você faça, ou como você vive a sua vida, as pessoas irão obviamente achar algum problema nisso. A gente julga uns aos outros o tempo todo. A gente se julga o tempo constantemente. Eu acho que as pessoas acham que essa conectividade é o mesmo que ser autoconsciente. Para mim, é diferente de ser autoconsciente. E reagir a tudo que está chegando para eles através dessa coisinha do caralho.” – ela segura seu iPhone de capinha rosa como se fosse uma arma, com uma expressão de antipatia crua no rosto – “seu senso de realidade fica completamente enviesado. Não é normal ser tão exposto assim. Você pode ficar exposto quando está no olho do público, mas então ter que estar no lado que recebe, como um nervo vivo, todas essas coisas de volta? É demais!”

Tão difícil que seja acessar no momento, Scarlett coloca sua fé na realidade física das pessoas. “É incrível como se você falar com as pessoas – não escrever para elas – é assim que você cresce,” ela diz. “Ouvir as pessoas, aprender com as experiências delas, compartilhar isso, ver com os seus próprios olhos.” É a filosofia bagunçada da atuação: abrace a imperfeição, faça as coisas do jeito errado, aprenda.

Na noite de eleição, 3 de novembro de 2020, quando Donald Trump brevemente pareceu estar na frente, Scarlett foi para cama em sua casa em Long Island e não conseguiu dormir, ela estava tão irritada. Às 6 AM, Hunter mandou mensagem, e ela disse para ele ir dirigindo para vê-la. Eles acamparam no sofá pelos próximos dias seguintes, bebendo vinho intermitentemente e cozinhando, vendo os números lentamente mudarem. Quando a vitória de Joe Biden foi anunciada, Scarlett estava de volta em Nova Iorque. “Você podia ouvir as pessoas surtando lá fora, e eu só chorei. Foi uma reação bem doida. Meu deus, acabou. Pareceu com o fim de uma guerra, sabe?”

Então o que vem depois da guerra? No mínimo, a presença de um adulto tranquilizador na Casa Branca. “Eu falei ao Colin, parece que quando a sua vida está desmoronando e uma pessoa mais velha, um amigo de um dos seus pais, falam tipo, ‘Vai ficar tudo bem.’ E você fica tipo, ‘Aaargh!’” Scarlett se derrete em um colapso comicamente grato pela sua versão avuncular imaginada de Joe Biden.

Quanto a sua própria vida, ela não consegue se imaginar atuando ainda, dadas todas as restrições contínuas devido ao COVID. “Não posso trabalhar. Eu não acho que as condições que são necessárias para trabalhar agora são condições sob as quais eu conseguiria trabalhar confortavelmente. Eu prefiro esperar até eu poder trabalhar em um ambiente onde nós podemos nos conectar uns com os outros.” Ela se checa. “Eu sei que as pessoas estão felizes só de ter um emprego. Felizmente, eu não tenho essa urgência.”

De qualquer modo, ela não parou de verdade. Ela não consegue. Scarlett vai para o escritório da sua companhia de produção, These Pictures, a maioria dos dias. Recentemente, ela tem passado muito tempo no celular falando com o diretor Sebastián Lelio sobre o novo projeto deles, Bride, um filme sobre um empresário que manufatura a esposa ideal (isso não vai bem.) As conversas deles foram a corda salva-vidas dela durante o lockdown, ela diz. “Elas me deram algo com o que sonhar.” Enfim, sempre tem algo a ser feito. Depois da gente desligar, ela tem que ir escrever algumas script notes. “Eu estou com uma tonelada de coisas acontecendo.,” ela diz, com um sorriso largo. “Estarei indo para o escritório e trabalhar.”

Entrevista retirada da vigésima terceira edição da revista americana The Gentlewoman.

*A data citada para a estreia de Viúva Negra não é mais válida, a estreia do longa agora está prevista para julho.